Segunda-feira, 29 de Agosto de 2011

X TRIATLO DA CALHETA

E depois do Iron!?

A época foi pensada com vista a um grande objectivo e no processo muitas provas foram negligenciadas. Embora eu não tenha tantas flutuações ao nível da forma física como tinha no passado, fruto principalmente de um trabalho mais consistente, a verdade é que depois de atingir um pico numa prova de grande exigência o caminho subsequente passa por uma queda vertiginosa dos índices físicos.

Pensei seriamente em não fazer esta prova pelas razões que enunciei mas o compromisso que fiz comigo de fazer todas as provas do circuito acabou por falar mais alto. A prova foi feita em formato supersprint com 400m de natação, 10kms de ciclismo e 2500m de corrida, o que não me beneficiava minimamente.



As duas semanas que precederam este triatlo foram passadas a recuperar de Roth e a preparação esteve longe de ser a ideal, fruto mais até de falta de motivação do que de cansaço.



A Calheta recebeu na tarde do dia 23 de Julho de 2011 este triatlo. O céu encoberto disfarçava um dia quente. Apesar disso a temperatura da água permitiu o uso de fato isotérmico. Passava já cerca de 30’ da hora marcada quando finalmente nos alinhamos na praia de areia da Calheta já dentro de água para a partida.

Natação (1 volta de 400m)

A ideia inicial de fazer a prova “a rolar” esvaneceu-se no momento em que o Victor tocou a buzina. As partidas motivam sempre um ritmo alto mas logo que passou a fase inicial moderei bastante a frequência de braçada, principalmente porque não me sentia com capacidade para manter uma cadência forte.



A partida da natação fez-se na praia do lado Nascente, contornamos duas bóias ao largo e depois seguíamos novamente para a zona donde partimos para sair da água.
Depois de contornar a primeira bóia acompanhei o Paulo Silva do CDN até à segunda. Apesar de haver grande número de atletas a passagem das duas bóias foi relativamente pacífica.



Depois da segunda bóia saí ligeiramente do rumo ideal e o Paulo fugiu. Acelerei nessa altura para me reposicionar e, novamente no curso certo, dirigi-me para a saída na praia.



Nunca me senti confortável neste segmento, pensei que estabilizaria no ciclismo mas isso não veio a acontecer. Saí bastante cansado da água com o Joaquim do Andorinha e um pouco mais atrás o meu colega de equipa o Marco Teixeira.

Ciclismo (10kms 8 voltas de 1250m)

A minha transição foi lenta e parti para o ciclismo ainda ofegante. Esperava estabilizar a pulsação durante este segmento mas nem o circuito nem a minha capacidade física actual o permitiram.



Os 16 retornos num percurso curto implicavam uma aceleração e desaceleração constante e não tive oportunidade para colocar na estrada um ritmo constante que me permitisse estabilizar e colocar uma cadência forte.



Os triatletas mais fortes, particularmente os mais jovens passavam por mim muito facilmente. Não consegui apanhar nenhum comboio. Ou eram muito lentos ou muito rápidos. Ainda estive alguns metros atrás do Aurélio Davide do Ludens mas passei-o na subida e tentei apanhar mais à frente o Artur que fazia o segmento de ciclismo duma estafeta e entretanto me tinha dobrado. O ritmo que ele tinha, no entanto era muito superior ao meu e não consegui mais do que me manter meia centena de metros na roda dele.







Acabei o ciclismo tão ofegante como comecei. Descalcei-me e parti para a T2 com o Aurélio e o Marco logo atrás de mim.



Corrida (2500m 500m + 2 voltas de 1000m)

Os 500m iniciais foram feitos no pontão que fecha o Porto de abrigo e o protege do mar. Logo aí o Marco e o Aurélio passaram à minha frente e ganharam uma vantagem que eu nunca fui capaz de anular.



Foi uma corrida sem grande história. Consegui finalmente entrar num ritmo estável neste segmento mas sentia-me sem a menor capacidade de endurecer a cadência.



Fui seguindo à distância o Marco e o Aurélio dobrando alguns atletas atrasados pelo caminho. Com os músculos “vazios” limitei-me a rolar até ao fim cortando a meta num tempo de 39’:55’’

Apesar de não ser um mau tempo final as más sensações que tive durante a prova foram a evidência clara da natural e esperada descida de forma após o monumental esforço de Roth.

Destaque na equipa do G.D. Corticeiras para a exibição do Marco Teixeira que vem premiar a sua consistência e a sua dedicação que são um exemplo para o resto da equipa. A equipa do Artur não conseguiu por pouco o primeiro lugar da geral mas não teve concorrência à altura e ganhou facilmente a competição por estafetas.



Quero deixar aqui os desejos de uma rápida recuperação ao Louis e ao Artur das lesões que os têm atormentado para que no futuro possam dar o seu contributo que é sempre muito importante para a equipa.



Gustavo

Fotos: Filipa Sousa, Cristina Quaresma, Fabio Rodrigues

Domingo, 17 de Julho de 2011

QUELLE CHALLENGE ROTH 2011

Foi o culminar de 2 anos de preparação. Um sonho que comandou a minha vida, um objectivo de difícil concretização. Muito sacrifício e superação, conhecimento, auto-conhecimento, investimento de tempo, de dinheiro, privação de conforto físico e psicológico, tudo o que é bom tem um preço e um Ironman paga-se caro.



PREPARAÇÃO

Como é que nos preparamos para este tipo de evento? Nunca tinha feito em prova qualquer uma das distâncias; 3800m de natação, 180 kms de ciclismo ou 42,2 kms de corrida.

Quem está apto a participar nestas provas geralmente são atletas tarimbados, endurecidos por muitos anos de desporto competitivo, não gajos porreiros que como eu fizeram desporto só ao fim de semana durante toda a vida e só de há 4 anos para cá decidiram que: ah e tal e se eu fizesse triatlo?

Embora tenha tido companhia na minha preparação dos meus caríssimos amigos deste grupo minoritário nos últimos 2 meses, a maior parte dos treinos, talvez mais de 90%, foram feitos sozinho. O que é um Ironman senão um longo esforço solitário em que nos debatemos com as nossas fraquezas e roçamos a fronteira física e mental das nossas capacidades.



Participei em todas as provas do circuito regional de triatlo no ano passado e este ano e apostei em fazer provas longas no continente, half-irons mais concretamente participando em Lisboa e em Aveiro.

A preparação específica começou no princípio da época, a ideia era apostar forte no atletismo e fazer as maratonas do Porto, Lisboa e Porto Santo. No entanto uma inflamação no tendão de Aquiles impediu-me de as realizar. Pensei nessa altura em desistir de Roth. Só em Janeiro quando tive a certeza de que recuperaria a 100% da lesão voltei a apontar as baterias ao Iron.

Delineei a minha preparação para esses 6 meses. Previ um pico de forma para o half iron do Porto Santo, o consequente abaixamento de forma (triatlo longo de Lisboa, triatlo olímpico de Machico) e a progressão consequente de subida até ao pico de forma na Alemanha.

Essa progressão consistiu num período de 2 meses com 5 semanas de carga de treino intensa, seguidas de 2 semanas de treino moderado e da semana de carga ligeira passada já na Alemanha. Só os meus companheiros de guerra mais próximos têm uma ideia do que eu passei na fase mais dura da preparação, desde as longas horas na piscina, aos bi-diários de corrida, aos bricks com treinos longos de ciclismo seguidos de corrida. Foi uma luta constante contra a fadiga inicialmente física e depois mental.

Passado o período de preparação rumei à Alemanha juntamente com outros 6 colegas do triatlo que tive o prazer de conhecer melhor durante a nossa estadia em Hilpoltstein. Dois desses colegas já tinham realizado a prova e para mim foi muito bom estar inserido neste grupo. A todos eles o meu obrigado pela companhia, pela boa disposição e pelo carácter que demonstraram ter nos momentos bons e menos bons da nossa campanha.



ESTADIA NA ALEMANHA

Terça-feira

Chegámos a Nuremberga na 3ª à noite e dirigimo-nos para Hilpoltstein onde nos instalámos, a cerca de 2kms do sítio onde ficava a partida de natação e a 7kms de Roth.



Quarta-feira

De manhã montámos as bicicletas e após um almoço num restaurante que viria a merecer a nossa preferência nos dias subsequentes, fizemos um reconhecimento de carro aos 90 kms do percurso de ciclismo. Ao fim da tarde 40’ de corrida a rolar passando perto do M. D. Kanal, local onde se desenrolaria o segmento de natação.




Quinta-feira

O programa das festas preparado pela organização começava na quinta-feira, com a abertura da feira de artigos de triatlo e com muitas outras opções. Nós optámos por andar de bicicleta de manhã. Percorremos 70 kms do percurso de ciclismo, tínhamos receio de que pudesse ser demasiado mas não foi. Depois do almoço fomos à feira, aproveitámos para fazer o check in e levantar o nosso material destinado à prova.




Sexta-feira

A organização disponibilizou três horas de manhã para quem quisesse fazer um reconhecimento da natação no canal. Deslocámo-nos para lá e nadámos cerca de 40’. Deu para sentir que o corpo, já sem a carga das semanas mais duras respondia bem às solicitações. No fim da manhã fomos ao briefing e na parte da tarde aproveitei para conhecer melhor Hilpoltstein, e ir novamente à feira.



Sábado

Fui andar de bicicleta, desta vez só. Fiz a famosa subida da Solarer Berg e aproveitei para conhecer a parte do percurso que ainda não conhecia do ciclismo. Foi um período de introspecção mas também serviu para aquecer os motores para o grande dia. Ao fim da tarde fomos ao PT deixar as nossas bikes e o equipamento destinado à corrida que ficaria na T2 em Roth.

QUELLE CHALLENGE ROTH

4:00 Após 5 breves horas de sono, acordei. O despertador só ia tocar daí a 30’ mas aproveitei levantei-me e calmamente preparei-me.

5:00 Pequeno-almoço

5:30 Deslocação a pé para o local da prova. Foi pouco mais de meia hora de passeio. À medida que nos aproximávamos o movimento nas estradas de automóveis, polícias e peões aumentava até chegarmos ao local da prova onde uma verdadeira multidão se concentrava.



O céu alemão apresentava-se sem nuvens, os balões sobrevoavam o canal, o ambiente festivo contrastava com a ansiedade dos atletas ;-)

Milhares de pessoas enchiam as bancadas colocadas pela organização, as margens do canal e as duas pontes que atravessavam o percurso de natação.



Eu no entanto estava indiferente a todo o contexto envolvente. Procurei lembrar-me de tudo o que tinha de fazer; ir à bicicleta colocar os abastecimentos, colocar o fato isotérmico, touca, óculos e creme gordo, arrumar tudo num saco próprio disponibilizado pela organização e entregá-lo juntamente com o saco que tinha com o equipamento para o ciclismo.



Os profissionais partiram às 6:30. A vaga onde eu ia só partia às 7:00. Rapidamente chegámos à hora marcada e dirigi-me juntamente com o Margarido que ia também na vaga das 7:00. Todos os atletas que partiam a esta hora tinham uma touca azul claro.

6:55 Entrámos na água. Formou-se num ápice uma linha de atletas ao longo dos 25m disponibilizados para a partida. Com 250 atletas nesta vaga, era um rácio de 10 atletas para cada metro. Eu fiquei um pouco para trás tentando evitar a pancadaria da partida, revelou-se um erro crasso…

Natação (1 volta de 3800m)

Dá-se a partida e fiquei logo emaranhado num monte de triatletas, todos a tentar ocupar espaços que não existiam. Passaram mais de 5 minutos até conseguir dar as primeiras braçadas, até aí nadei bruços, crawl sem bater pernas, parei inclusive. Não havia espaços para onde sair e só após mais de 300m de prova consegui começar a nadar normalmente.



Estava ofegante foi um início problemático. Tentei relaxar fazendo drafting nos pés de atletas que iam à frente, mas até os lugares atrás dos mais rápidos estavam a ser disputados ao milímetro.

Alguns minutos depois decidi acelerar deixando o grupo onde estava inserido para trás. Despendi muita energia mas valeu a pena. Estava agora a nadar sem restrições. Vislumbrei um grupo à minha frente e fui-me aproximando de uma maneira progressiva mas sem grandes acelerações, a prova ia ser longa e o dia ainda mal tinha começado.



O percurso de natação foi feito num canal artificial de água doce que atravessa a Alemanha e é utilizado por embarcações para fazer deslocar mercadorias ao longo da Europa. As margens são regulares e a configuração do plano de água fazia lembrar uma piscina gigante. No entanto sempre que nadava só, não conseguia evitar andar aos esses aproximando-me e afastando-me da margem.



O primeiro retorno fazia-se pouco depois de passarmos uma ponte. Até aí estive lado a lado com um atleta do grupo que tinha alcançado. O ritmo era bom, mas nesta altura fui ultrapassado por uma touca laranja, da vaga que partiu 5’ depois da nossa.

Fiz o primeiro retorno sem problemas, ia ultrapassando toucas azuis e a espaços era ultrapassado por toucas laranjas. A partir de certa altura deixei de ultrapassar até colidir com uns pés que iam muito lentamente na minha frente. Era uma touca rosa de uma das senhoras que partiram 15’ antes de nós.

Sensivelmente a meio do percurso feito na margem Norte do canal tentei acompanhar uns pés com touca laranja, não consegui e fiquei novamente só. Fui avisado pelos juízes pois estava quase a passar para o lado Sul do canal onde vinham atletas em sentido contrário. Sentia que ia aos esses e logo que tive a oportunidade coloquei-me lado a lado com um atleta de touca azul que fui acompanhando durante muitos metros.

Já a poucos metros da segunda ponte senti que estava a nadar cada vez melhor e quando passou por mim um grupo de toucas laranjas coloquei-me nos pés deles e aí me mantive até ao 2º retorno.

Neste retorno houve confusão, havia muita gente, toucas brancas da 2ª vaga a seguir à nossa que entretanto tinham chegado misturavam-se com as laranjas, azuis e rosas. Consegui no entanto alcançar mais uns pés rápidos e aí me mantive até passar novamente a ponte já na direcção oposta e chegar à zona de saída da água.

Havia muita gente, mas a saída foi fácil. Voluntários recrutados pela organização ajudaram-nos na saída, corremos até à zona de entrada para uma enorme tenda onde tirávamos o fato e nos mudávamos. Antes de entrar solicitamos o saco previamente entregue com o material do ciclismo aos voluntários que o localizavam pelo nosso número e nos entregavam.



Entrei na tenda despi o fato e coloquei-o no saco. Calcei meias, luvas e parti para a zona onde tinha colocado a bicicleta. Tomei um gel dado logo à saída da tenda, encontrei a minha bicicleta que estava colocada por ordem numérica, coloquei óculos e capacete que tinha deixado lá e corri com ela até à zona de monta, subi e parti para o ciclismo.



Ciclismo (182kms 2 voltas de 91 kms)

Uma multidão ladeava-nos à saída do PT. À esquerda e à direita gritos de incentivo quebravam o relativo silêncio que sentimos na natação. Quando saímos da zona de transição e entrámos na estrada principal, todo o inferno se soltou. Centenas de pessoas gritavam criando um rugido que nos envolvia e nos catapultava para a frente.

Quando finalmente cheguei a uma zona mais calma pude me concentrar na corrida. Havia muitos ciclistas na estrada. Apesar das saídas serem feitas em vagas o número de atletas em prova era muito grande.

Como é habito fui ultrapassando vários atletas no princípio deste segmento, a maior parte dos quais com bicicletas magníficas de contra-relógio; scotts plasma, specialized transition, cervelos P4 entre muitas outras. Havia também bicicletas mais modestas, simples modelos de estrada tal como a minha com extensores montados. Passei inclusive por uma atleta com uma planet x igual à minha. Quando passei por ela comentei: Hey nice bike…

Ela percebeu a chalaça e sorriu. É este o espírito das provas longas, apesar do esforço colossal a boa disposição está sempre presente.

Não sei como são feitas as estradas na Alemanha, mas ao contrário das nossas consegue-se andar largos quilómetros sem ver um único buraco, racha ou irregularidade no piso. Foi muito fácil rolar e ir atingindo velocidades interessantes.



Quando cheguei ao primeiro posto de abastecimento já tinha bebido toda a água que tinha no aerodrink montado nos extensores. Apanhei como tinha planeado um bidon com água, gel e banana. De referir que os voluntários deste primeiro posto eram forças militares locais devidamente fardadas. No final do posto dois soldados a fazer continência ladeavam uma bandeira com as armas da guarnição local, ambos com um sorriso genuíno nos lábios. Percebia-se que para eles aquilo não era um frete, eram pessoas que verdadeiramente compreendiam o esforço dos atletas e tinham todo o gosto em ajudar.

Um cartaz colocado num entroncamento onde se lia “smile please” era evocativo da atitude a ter presente neste tipo de provas: uma postura positiva.

Muitos quilómetros depois entramos numa zona de floresta. Começaram aí as verdadeiras dificuldades. Até esse ponto muita gente me tinha passado, mas quando a estrada começou a inclinar a situação inverteu-se. Chegámos finalmente a uma zona onde havia um desvio relativo ao percurso de 2010. Conhecia bem esta zona do reconhecimento que fizemos, era a primeira subida a sério do percurso.



Fui passando por muitos atletas na subida e já no fim, e apesar de estarmos longe de qualquer povoação, vi muita gente que se encontrava lá acantonada à espera da passagem dos triatletas, alguns dos quais sentados confortavelmente a beber cerveja em cadeiras desdobráveis na sombra das árvores.

O sol esteve sempre presente e com o passar do dia o calor começou a ser um factor relevante. Nesta altura nem pensava na maratona. O ciclismo foi sendo pensado por etapas, sabia que até chegar à povoação de Greding o percurso era feito a rolar somente com subidas e descidas pouco pronunciadas.



Tive sempre cuidado com a alimentação. Mesmo quando não me apetecia comi um chocolate ou um gel entre postos de abastecimento e procurei gastar sempre o conteúdo do bidon garantindo que me mantinha hidratado.



Passado o que na altura me pareceu uma eternidade chegamos perto de Greding, local onde se localizava a Kalvarien Berg (montanha do Calvário). De referir que para qualquer pessoa que treine com regularidade pelas serras da Madeira, a dificuldade nessa zona é muito relativa. A subida é longa e inicialmente bastante inclinada, mas não tive nem perto de usar as mudanças mais leves.

A parte má foi ter falhado o posto de abastecimento colocado a meio da subida. Passei largas dezenas de atletas nesta altura. O meu ego inchou bastante, o que é que se passa? Pensei eu, porque é que estão a usar os travões na subida… :-)

Até chegar a Greding tinha uma média bem perto dos 37 km/h. Sabia que era rápido, mas seria demais? Sabia no entanto que depois de Greding a média desceria e sentia-me confortável neste ritmo.

A partir daí e até chegar a Hilpoltstein, limitei-me a ir rolando. Procurei distrair o meu cérebro, tentando não pensar nas distâncias e no tempo que ainda demoraria em cima da bicicleta. Tinha pouco mais de hora e meia de bicicleta e sabia que não tinha ainda nem um terço do segmento feito, sem falar no que me esperava depois do ciclismo.

Pedalava por instinto, nem olhava para o ciclocomputador. Atravessei largas zonas descampadas e pequenas povoações até chegar perto de Hilpoltstein. Aí tivemos uma descida pronunciada e entramos noutra povoação onde voltamos a encontrar muita gente que nos aplaudia e incentivava.



Após perto de duas horas de ciclismo consegui finalmente chegar à subida que precedia uma longa descida que nos levava ao centro de Hilpoltstein. Cheguei lá cima exausto e fiz a descida a lascar. Entrei finalmente na cidade. Foi surreal, muita gente nos esperava aplaudindo e gritando por nós e, após duas curvas, a Solarer Berg.

O começo da longa recta era plano com centenas pessoas ainda contidas por barreiras, mas de repente a estrada inclina as barreiras deixavam de existir e fomos engolidos pela multidão presente. Gostava de dizer que me senti emocionado e electrizado com o ambiente mas a verdade é que estava demasiado concentrado procurando ultrapassar logo que pudesse os atletas que iam à minha frente.

Seguimos em fila indiana ao som dos gritos de incentivo alemães; hop, hop, hop, hop, do ruído das matracas, das buzinas, alguns gritavam o nosso nome que estava estampado nos dorsais, mas passados breves minutos o número de espectadores começou a diminuir e entramos de novo na melancolia da longa corrida a solo por entre as paisagens da Alemanha rural.

Após muitos quilómetros completamos uma volta. Passamos pelo local onde após se completar as duas voltas nos dirigíamos a Roth para a T2. Quem me dera poder virar já à direita pensei eu…

A segunda volta foi mais do mesmo. Fiquei com a recordação duma disputa que fui tendo com um atleta italiano que guiava uma P4 preta. Nas descidas ligeiras e nos planos ele disparava mas nas subidas passava-o facilmente até ele me ir buscar novamente nos longos planos.



Entretinha a mente com estas pequenas disputas e com os abastecimentos procurando me abstrair do facto de que apesar de tudo o que já tinha feito ainda me esperavam muitas horas de prova.

Passei nos mesmos sítios, na zona militar, nos longos percursos ladeados quer de árvores quer de planícies verdejantes. Não falhei nenhum abastecimento. Dei preferência à água e aos gels. Os chocolates que trouxe tinham acabado, mas tinha barras energéticas. Ao nível dos nutrientes sólidos estava assegurado, o meu receio era de que pudesse faltar água e por isso nunca arrisquei e desacelerei bastante nas zonas de abastecimento garantindo que não falhava nenhum.

Quando finalmente cheguei a Greding e comecei a subir a Kalvarien Berg pela segunda vez fi-lo com mais contenção. Não quis arriscar perder o abastecimento localizado a meio da subida pois estava já sem água. Logo que assegurei o meu bidon acelerei novamente até ao topo.

Psicologicamente sabia que a parte mais difícil tinha passado, o que foi muito bom. De referir que apesar de estar na segunda volta o número de ciclistas na estrada não me pareceu ter diminuído como seria de esperar pela dispersão ao longo do curso. Tinha de estar sempre atento para não cair em situações de drafting e por vezes alcançava ou era passado por verdadeiros pelotões.

Havia muitos juízes em prova, mas vi muitas situações irregulares. Pela minha parte nunca corri riscos e preferi sempre abrandar ou acelerar a cair em situações em que pudesse ser penalizado.

Os quilómetros percorridos estavam marcados ao longo da via mas nunca lhes atribuí importância. Quando chegar cheguei pensava… Passei novamente por Hilpoltstein e pela Solarer Berg. O apoio popular não tinha diminuído… Incrível pensei, esta gente não se cansa.

Apesar do cansaço e de ainda faltar algumas dezenas de quilómetros, a perspectiva de me dirigir já para a T2 animava-me. Quando cheguei à zona que separava o percurso e nos encaminhava para Roth, fui seguindo à distância um atleta que estava com um ritmo muito interessante. Senti que podia passá-lo mas não me interessava nesta altura entrar em disputas.

Quando vi que o atleta em questão desafivelou os sapatos fiz o mesmo. Pouco depois uma curva à direita e chegámos a Roth. Muitos voluntários esperavam-nos, desmontei dei-lhes a minha bicicleta e encaminhei-me para uma tenda onde mais voluntários nos ajudaram a fazer a T2.

Uma voluntária ajudou-me na transição. Dei-lhe o saco que outro voluntário entretanto me tinha entregue com o meu material de corrida. Calcei-me, coloquei boné e parti para a corrida.

Corrida (42kms 1 volta)

A corrida começou nas estradas de Roth até entrarmos numa zona de bosque que nos levava para o canal ao longo do qual se desenrolava grande parte da prova. Comecei com calma, não me deixei entusiasmar pela multidão disposta ao longo das ruas, o dia ainda ia a meio e para mim a corrida a partir dos 30kms seria terreno desconhecido.



Não fraquejei minimamente no princípio. Tinha a confiança obtida pelos vários treinos de bicicleta duros seguidos de corridas longas que fiz na Madeira. Sabia que o desconforto que sentia na bicicleta acabaria por passar e assim aconteceu.

O percurso que antecedia a chegada ao canal era feito numa estrada estreita dentro de uma zona de bosque coberta por árvores. Mesmo assim conseguia perceber que o sol brilhava intensamente. A maior parte desse troço inicial foi feito em subida. Nada a que eu não esteja habituado. Procurei no entanto conter-me, pois a vontade de acelerar e ultrapassar toda a gente que via era muito grande.



Quando passou por mim um atleta de camisola amarela com as referências a um clube de Munique procurei acompanhá-lo. O ritmo dele era constante e decidi manter-me na peugada desse atleta.

Passei primeiro por uma zona de abastecimento. Tomei água, apanhei um gel que guardei e comi banana. Continuei atrás do atleta de Munique até finalmente chegarmos ao canal, aí inflectíamos para Norte e corríamos ao longo da margem.



Ultrapassamos muita gente, mas de vez em quando alguém nos passava. Os únicos atletas que nos passavam com um ritmo verdadeiramente rápido eram os das equipas de estafetas.

Passados vários quilómetros e duas estações de abastecimento o atleta de Munique começou a abrandar, não tive outro remédio senão passar. Os quilómetros marcados na margem passavam muito lentamente e apesar de correr uma aragem suave ao longo do canal o sol escaldava.

Ansiava por zonas de sombra mas não haviam. De cada vez que passava por uma estação de abastecimento para além de beber água e apanhar um gel, apanhava esponjas molhadas, molhava a cabeça e colocava duas dentro do fato e aí as mantinha até ao próximo abastecimento.

Vi aproximar-se uma zona do canal interrompido por uma comporta. Aí saíamos da margem e rumávamos a uma povoação onde fazíamos um percurso de alguns quilómetros até regressarmos ao canal e dirigirmo-nos em sentido contrário.

Iniciei então uma descida que nos levava à tal povoação. Nesta altura passa por mim o tal atleta de Munique num ritmo bem alto. Nunca corri uma maratona num iron pensei eu, mas acho que ainda nos voltaremos a encontrar antes do fim da prova...

Apesar de molhar-me num posto à entrada desta parte do percurso o calor apertava imenso. Não corria nem uma pequena brisa nesta zona, sentia o asfalto quente debaixo dos pés e nem o grande apoio do público nesta zona minimizava o sofrimento.

Os cerca de 5kms feitos nesta zona pareceram-me intermináveis, cheguei finalmente ao retorno percorri penosamente o percurso de volta na povoação, passei pela comporta onde estava o abastecimento e comecei a subida de volta à margem do canal.

As subidas não me assustam pensei eu. Deixei muita gente para trás até alcançar um atleta de nome Alain. Entrámos novamente no canal, agora em sentido contrário.

Passámos pela marca dos 17 kms, “só” faltavam 25 kms pensei eu. O atleta que eu perseguia apercebeu-se da minha presença e acelerou, mas de cada vez que passávamos por um posto de abastecimento ele parava para se abastecer, eu somente abrandava e passava por ele. Ele acelerava passava-me e ganhava alguma distância… até ao próximo posto de abastecimento.

Chegamos a uma situação em que ele demorava cada vez mais tempo a me passar até ao ponto em que ele ficou definitivamente para trás e deixei de o ver. Não tive de acelerar limitei-me a manter o ritmo constante que trazia.

Acabei finalmente por passar pela zona por onde entrei para o canal. Tinham-se passado cerca de 23 kms e comecei a percorrer a zona Sul da prova. Apanhei uma grande área com sombra dada por árvores dispostas lateralmente. Havia muito mais gente nesta parte, alguns não eram atletas apenas transeuntes, muitos dos quais tinham vindo ver a prova.

Passei por dois cartazes com as palavras imortais de Lance Armstong que me deram o mote para o resto da prova. Primeiro “pain is temporary” e o segundo “quiting last forever”. Apesar de sentir o corpo bastante castigado, nunca me passou pela cabeça desistir.

Estava no meu pico de forma e tinha a certeza de que as pernas aguentariam. Este sentimento de optimismo levou-me inclusive a acelerar ligeiramente, mas tão depressa como apareceu o sentimento desapareceu motivado por princípios de cãibras.

Rolei até tornarmos a sair da margem. A temperatura era suportável mas quando cheguei à saída vi a marca dos 26kms. Era mais um percurso fora da zona do canal, lembrei-me do que tinha passado na outra saída e preparei-me mentalmente para tempos difíceis. Fiz contas aos kms e calculei que esta zona teria cerca de 5kms à semelhança da outra a Norte.

No início deste percurso localizava-se um bar onde muitos alemães estavam sentados na esplanada a aplaudir-nos e a ver-nos passar. Passámos por um abastecimento e depois entramos numa zona de bosque, descemos uma rampa durante alguns minutos e entramos noutra povoação.

Estava de novo debaixo da força total do sol. Felizmente havia um posto de abastecimento logo à entrada. Bebi água e molhei-me o melhor que pude. Na berma das estradas estavam colocadas bancadas com bancos por trás protegidas por guarda-sóis onde uma verdadeira multidão bebia e fazia ruído incentivando os atletas.

Apesar do cansaço era impossível ficar indiferente. Ao contrário da nossa terra os espectadores não se limitavam a olhar impávidos e embrutecidos fazendo meia dúzia de graçolas parvas, ouvia claramente os gritos: “super” e “klasse” e alguns inclusive gritavam o nosso nome. Limitava-me a sorrir e a erguer o polegar reconhecendo e agradecendo da única maneira que podia este apoio incansável e incondicional.

Saímos da povoação e continuamos. Mas onde é que está esse retorno? Pensava eu. Subimos uma rampa, passámos por uma ponte que passava por cima do canal e pouco depois um posto de abastecimento e o retorno.

Passei pela mesma povoação agora em sentido contrário entrei no bosque e pouco depois estava a subir a rampa. Comecei a sentir cãibras novamente. Desta vez eram os dedos do pé esquerdo que se contraíam e não esticavam. Tive de desacelerar mas acabou por passar. Pouco depois novo abastecimento e a entrada de novo na margem do canal.

Não havia mais retornos, faltavam cerca de 13 kms, tinha receio que aparecesse o homem da marreta, aquele que depois dos 30 kms de corrida nos aponta um malho à cabeça. Ele porém nunca apareceu. O percurso até à saída do canal foi mais do mesmo. O canal fazia uma curva suave nesta fase e só quando a curva acabou pude ver ao longe uma grua gigante. Apesar de não me lembrar de a ver anteriormente, tive logo a sensação de que a saída da margem do canal ficaria algures por ali.

Cheguei finalmente à zona da grua, despedi-me do canal entrei no bosque e dirigi-me novamente a Roth. Ainda antes de sair do canal acabei por passar pelo atleta de camisola amarela que me tinha deixado para trás 22 kms antes :-)

Desci a rampa por onde tinha subido à 30 kms atrás. Fui ultrapassando muita gente, e apesar de desejar ardentemente chegar ao fim sentia-me dentro das circunstâncias razoavelmente bem.

Passei pela marca dos 37 kms. Ainda faltam 5 kms, na altura pensei que estava mais próximo. Quando finalmente saí do bosque apercebi-me que não estava longe da zona da meta, mas o percurso não nos encaminhava para lá, ainda fazíamos um pequeno desvio para Roth antes de nos dirigirmos para o tapete vermelho.

Corri pelas ruas de Roth até entrar num pequeno percurso estreito ladeado por bancadas com pessoas sentadas a beber cerveja, e a nos incentivar. As crianças estendiam as mãos e solicitavam high fives, os gritos da praxe; hop, hop, hop, super, klasse ouviam-se repetidamente. Apesar de tudo não conseguia descontrair, tinha passado pela marca dos 40 kms, “ainda” faltavam 2 200m.

Falta só uma série de 2000m pensava eu, para as minhas pernas era como se faltassem 20 000m. Quando me apercebi que tínhamos já virado e nos dirigíamos para a zona de meta a minha atitude finalmente mudou.

Passei pelos 41 kms, aproximei-me lentamente de dois atletas alemães e mantive-me atrás deles até à área de chegada. Ia-me manter atrás deles mas com a percepção de que estava a chegar à zona de meta, quis chegar lá isolado sem ter que partilhar aquele momento com ninguém!



Acelerei passei-os, mais uma curva e de repente, sem ter a noção, entrei na zona das bancadas onde uma multidão aguardava a chegada dos atletas. Os gritos aumentaram à minha passagem, e não me consegui conter. Tive uma descarga de adrenalina e gritei bem alto puxando pelo público que correspondeu e partilhou do meu momento de júbilo. O speaker anunciou: Gustavo Sousa aus Portugal. Pouco tempo depois a meta!



Foram breves segundos de glória. Vi no pórtico da meta o tempo 10:59. Senti na altura que tinha sido melhor que isso, mas estava tão feliz por ter concluído a prova que nem meditei muito sobre o assunto.



Só mais tarde já depois de ter tomado banho e comido alguma coisa solicitei que imprimissem o diploma e vi finalmente o meu tempo: 10:29’:06’’. Percebi que o tempo do pórtico era o dos profissionais que tinham partido meia hora antes e não o meu, sintoma claro do meu extremo cansaço .



Quero fazer referência às excelentes provas de todos os madeirenses que tiveram a felicidade de concluir. Um reconhecimento especial ao sr. Carvalho que correu os kms finais da maratona debaixo de trovões e de uma chuva diluviana e mesmo assim só por muito pouco não atingiu o objectivo de tempo a que se propôs.

Foi uma experiência inesquecível mas foi só mais uma etapa, a minha vontade de evoluir continua. Se depender só de mim este não será certamente o último Ironman que faço na vida.

Gustavo

Fotos: Filipa Sousa, Óscar Pereira, Romeu Miranda, Carvalho

Quarta-feira, 22 de Junho de 2011

VIII TRIATLO DO PORTO MONIZ

No final da prova fiquei com a sensação de que poderia ter feito um excelente resultado. Três MOMENTOS decisivos e de certa maneira cómicos levaram a que o tempo final não fosse o desejado.




O sol espreitava intermitentemente por entre nuvens que disputavam entre si o seu próprio triatlo movidas por um vento vigoroso. As bicicletas que eram colocadas no PT balançavam nos tubulares e o mar para onde nos dirigíamos, apesar de não ter uma ondulação muito grande, vibrava com a brisa que o ia afagando.















Eram quase 9:00 do dia 19 de Junho de 2011 quando nos alinhámos para a partida. Faltam 10’’ grita o Victor…

Estávamos todos expectantes a olhar do mar para a borda do Cais, quando pouco depois dos anunciados 10’’ se vê apenas uma pequena fumaça a sair da buzina. O som não ribomba pelos céus como de costume, mas os atletas saem disparados e após uns décimos de segundo de hesitação arranco para o VIII triatlo do Porto Moniz.















Natação 750m

Este segmento foi feito em duas voltas dentro do Porto de Abrigo de Porto Moniz. Rapidamente chegamos à 1ª bóia, a confusão para não variar foi grande. Uma amálgama de toucas coloridas amontoava-se para depois se dispersar até chegar à 2ª bóia onde o processo se repetia.

Após o começo que nos acelera sempre a pulsação para níveis muito altos, contornei as primeiras duas bóias e dirigi-me para o fundo do U que define o porto de abrigo e onde se encontram as escadas por onde saímos no final do segmento. Houve sempre alguma confusão até ao final da primeira volta. Junto à zona das escadas contornámos mais duas bóias e partimos para a segunda volta.

A partir daqui acompanhei um atleta de touca vermelha, salvo erro o Joaquim do CF Andorinha dois outros atletas acompanhavam-nos um pouco mais atrás, um deles era o SQ do CDN o outro talvez fosse o Miguel do CAM mas nunca cheguei a identificá-lo.
















Entre a 2ª e 3ª bóia o Joaquim terá ficado um pouco atrás e o SQ apareceu do meu lado direito acompanhando-me até ao final do segmento. Subi as escadas e corri pelo tapete azul para o PT até que decidi sair do tapete para passar em corrida um atleta o que deu origem a:

MOMENTO 1: A tapar uma fenda no chão estava uma placa com revestimento fenólico que conjugada com uma superfície molhada cria uma zona livre de atrito sem qualquer hipótese de tracção para o infeliz que decidisse lá colocar o pezinho. Não evitei essa placa o que fez os meus pés acelerarem mais que o resto do corpo o que levou a que a minha retaguarda acelerasse a uma razão de 9,8 m/s² em direcção ao chão…

Levantei-me ainda mais depressa e entrei no PT ao lado do Miguel, fiz a transição peguei na bike e parti para o ciclismo. Saltei para cima da bicicleta e tentei-me calçar mas:

MOMENTO 2: Por mais que tentasse não conseguia enfiar o pé no sapato direito. O bocal do sapato estava fechado, tentei repetidamente mas não consegui, entretanto o Miguel passa por mim. Calcei o sapato esquerdo mas estávamos já no fim da parte plana, numa altura em que passa por mim a minha possível segunda boleia, o Viveiros do CNC.
















Fiz a subida com um pé descalço. Tive de fazê-lo com muitas cautelas pois se o pé saltasse o resultado seria uma queda aparatosa. Durante esta subida feita em câmara lenta passa por mim o Óscar a minha terceira e última possível boleia, num ritmo bem diferente do meu.

No final da subida ao chegar à rotunda numa zona plana tentei me calçar novamente… em vão. Pouco antes de entrar no primeiro túnel fiz o que devia ter feito logo ao sair do PT parei, tirei o pé esquerdo do pedal, abri o bocal do sapato direito com a mão e calcei-me.

Ciclismo (20kms)

Este percurso de ciclismo é dos mais espectaculares do circuito regional. É feito numa única volta entre Porto Moniz e o Seixal por entre viadutos e túneis num piso imaculado.

Não tive no entanto oportunidade para apreciar as qualidades do percurso. Para além de muito tempo tinha perdido também a embalagem. Arranquei em subida e parti atrás do prejuízo. Sabia que neste percurso pedalar sozinho significava ter um grande desgaste sem ter grande rendimento. Tinha 10 kms até ao Seixal para tentar arranjar um comboio, a vinda do Seixal era feita na sua maioria em descida e aí sabia que teria muito poucas hipóteses de alcançar algum atleta que tivesse um andamento compatível com o meu.

Passei vários atletas pelo caminho. O meu objectivo era tentar apanhar o Viveiros ou o Óscar. Não fazia ideia se estavam muito longe, sabia no entanto que se tivessem juntado nunca os apanharia.

Sentia-me frustrado e exasperado com a situação. Á medida que ia galgando túnel acima ia vociferando impropérios, percorrendo o português vernáculo de A a Z, amaldiçoando a minha aselhice e pedalando o mais rápido que podia. Coloquei-me em cima dos extensores, procurei uma posição aerodinâmica mas:

MOMENTO 3: a meio da semana levei a bicicleta ao mecânico que me ajustou a posição do guiador, os extensores tinham ficado muito para cima e então desapertei-os para os nivelar. À medida que pedalava estava a tornar-se óbvio que não tinha apertado os extensores ao guiador como deve ser. Quando me apercebi estavam quase na vertical e não tive outro remédio senão mudar de posição.
















Por esta altura estava a cerca de 100m do retorno do Seixal, do outro lado da estrada passam por mim já em descida o Miguel e o Óscar. Dificilmente os alcançaria mas tinha de tentar. Depois do retorno porém já não conseguia ver ninguém no fundo do túnel.






















Pedalei sozinho até ao princípio da subida da Ribeira da Janela altura em que persegui e alcancei um atleta do Ludens que não consegui identificar. Passei-o e no topo da subida descalcei-me e preparei-me para a T2 que queria que fosse imaculada depois de todos estes contratempos.










































Ao chegar ao Porto de Abrigo vi o Paulo Silva do C.D.N. e o Viveiros a começar a subir a rampa já na corrida. Calculei que teria no mínimo 2’ de atraso, dificilmente os apanharia. Fiz a T2 no entanto com determinação. Calcei-me e parti para os 5kms de corrida.


Corrida (5 kms)

Sentia-me muito bem fisicamente apesar da frustração de saber que podia estar a fazer muito melhor. Subi a rampa do Porto para iniciar a primeira das 4 voltas que constituíam este segmento.






















Fui dobrado no início pelo Bruno Freitas atleta jovem do Ludens que viria a acabar em 2º lugar só superado pelo seu colega de equipa, o inevitável Tiago. Apesar de ter um ritmo bem mais forte que o meu, ele acabou por marcar um tempo que foi importante para mim. Já no fim desta primeira volta eu também seria ultrapassado pelo Tiago e no princípio da 2ª pelo Gouveia triatleta do CDN que completou com os outros dois o pódio.






















A meio da segunda volta passou por mim o André, atleta da estafeta do Fábio que viria a ficar em 2º lugar em estafetas. Colei-me ao André e aproveitei a boleia mas ele estava já a terminar a prova. Vi-me de novo sozinho até a meio da terceira volta ver dois atletas do CDN, um deles era o SQ na sua primeira volta de corrida. Acabei por passá-los e iniciei a 4ª volta.

Apesar de sentir que estava a correr a um bom nível sentia-me folgado, não tive aquela sensação de que a corrida nunca mais chegava ao fim. Pelo contrário, senti que a 4ª volta foi feita muito rapidamente e cortei a meta em 1:11’:29’’

Esta prova contava para o campeonato regional de triatlo por equipas. Sabia à partida que com o CDN e o Ludens a colocarem em campo as suas principais armas dificilmente o Corticeiras na disputa pelo 3º lugar superaria o CAM apesar da ausência do Margarido.






















Os meus colegas de equipa no entanto tiveram excelentes prestações. O Marco foi o segundo da equipa e acabou por melhorar 6’ em relação ao tempo que trazia do ano passado. O Sérgio completou a equipa melhorando 10’ em relação a 2010. A Ana ganhou o seu escalão e foi 3ª da geral. Nas estafetas a equipa do Corticeiras que teve o Fábio na natação ficou em segundo lugar só superada por uma equipa muito forte que viria inclusivamente a ficar à frente na geral. A estafeta do Artur fez também uma boa prestação e acabou no 4º lugar.

Gustavo

Fotos: Filipa Sousa, Amilcar Gamelas